Olho de sogra
Vocês conhecem o docinho “olho de sogra?
Ele é uma massa feita de leite condensado e coco cozida no fogo. Após a massa ficar no ponto é feito bolinhas e o docinho é finalizado com um pedaço de ameixa seca por cima. Fica um olho e bem grande como um olho de sogra.
Devido seu nome é complicado dizer “Nossa, como eu gosto de olho de sogra!!” mas com certeza muita gente já deve ter sentido vontade de dizer isso, afinal, ele é muito gostoso. E por outro lado, quem num momento que seja não quis comer, mastigar e se deliciar não só com o olho da sogra, mas com ela inteira, viva!
Para mim ele é o docinho mais exótico e mais gostoso. Todos, inclusive eu, amam brigadeiro, beijinho, cajuzinho e outros docinhos elegantes que vêm historia adentro de festinhas e eventos, mas para mim o olho de sogra é…impar, raro, enigmático, e uma oportunidade para compartilhar com o outro o que gosto e descobrir dele coisas que eu não sabia.
Explico:
Todos os docinhos são meigos, bem cuidados e o olho de sogra, bem…Ele de forma impar é quase assustador…Além de docinho ser doce, docíssimo e ele não é tão doce assim pelo gosto azedo da ameixa, acho que mais uma vez esse dá o motivo ao nome.
Responda-me quantas festas você foi e tinha o olho de sogra? Quantas padarias e confeitarias você entrou e encontrou o raro docinho? E quantas vezes você fez brigadeiro em casa e quantas vezes você fez olho de sogra em casa? Acho que suas respostas respondem o adjetivo “raro”.
E…O que o olho de uma sogra vê? O que um olho de uma sogra avalia? O olho é um portal da alma e – ai,ai, ai o que há de ter na alma de uma sogra? Experimente olhar pra o docinho, olhe bem profundamente…fixe o seu olhar…Ele vai te dizer algo!
E contextualizo que estou numa cidade bem diferente das cidades de onde cresci. Estou no norte e o norte do Brasil é muito especial e pouco comum. Aqui me deparei com poucas coisas que me lembrasse a identidade de nordestina. A música é diferente, o clima é diferente, o sutaque é diferente, não tem praia, não tem brisa e pouca rapadura…Mas estou hospedada ao lado de uma padaria que tem todos os dias, eu repito TODOS os dias uma bandeja cheia de olho de sogra para vender- Fico me perguntando se são os mesmos docinhos e que só eu compro, mas isso é outro detalhe que eu já posso justificar nas linhas acima. Mas fiquei encantada…
Poxa, eu encontrei bem do lado de onde estou hospedada algo que amo comer e me identifico muito. Eu cresci comendo rapadura e tentando encontrar olho de sogra nas festinhas e padarias de Fortaleza. Eu amo esse docinho impar e as pessoas acham isso meio estranho. Você também acha? E escolhi o olho de sogra para fazer uma coisa igualmente impar.
Compro todos os dias 6 docinho e escolho alguém para dividir. Conhecido ou desconhecido. E despretensiosamente pretendo presenteá-lo com algo que ele provavelmente nunca ganhou e ainda compartilhar um gosto exótico, nos dá um momento impar de um papo e ainda ver o quanto isso nos dá respostas de alguns enigmas da vida humana, afinal eu nunca sei o que pode ser dito por uma pessoa que come um olho de sogra. Umas delas me disse ” nossa, fazia tempo que eu não comia um docinho desse, não me lembrava que comer um olho de sogra iria me fazer tão bem, vou fazer isso mais vezes…que a minha sogra não me escute.’ Uma outra me disse mastigando o docinho “ Flor, eu tenho HIV…” – nossa, essa confissão não foi exótica, foi inesperada e chocante. Um outro ria tanto, ria tanto e me perguntou” Flor, o que você colocou nesse docinho?”.
Num outro momento sentei no banco perto da padaria. Esperei a primeira pessoa que sentasse comigo. Sentou uma mulher de seus 45 anos…Aceitou o presente, fomos comendo e ela me perguntando de onde sou, o que vim fazer por aquela cidade e ela foi falando dela, da vida dela, dos sonhos dela e já se passava mais de 1 hora que conversávamos e ela enfim me disse” Nossa conversa me deixou muito feliz, não esperava encontrar uma oportunidade de falar de mim e de ouvir alguém que eu nunca nem imagina que existia. O mundo ainda tem muita coisa boa para se viver” e assim ela me abraçou e foi sem trocarmos telefones ou qualquer algema.
Ofereço a você um olho de sogra. Você quer?
Um docinho,
Flor Atirupa


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